Grafica 110

Dedicado à minha querida amiga Solange


Amar Que pode uma criatura senão,entre criaturas, amar?amar e esquecer,amar e malamar,amar, desamar, amar?sempre, e até de olhos vidrados, amar?Que pode, pergunto, o ser amoroso,sozinho, em rotação universal, senãorodar também, e amar?amar o que o mar traz à praia,e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?Amar solenemente as palmas do deserto,o que é entrega ou adoração expectante,e amar o inóspito, o áspero,um vaso sem flor, um chão de ferro,e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.Este o nosso destino: amor sem conta,distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,doação ilimitada a uma completa ingratidão,e na concha vazia do amor a procura medrosa,paciente, de mais e mais amor.Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossaamar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.Carlos Drummond de AndradeEm resposta à dedicação que eu estava no Facebook Dedico este poema aos "Frenando Pessoa" "minha querida amiga Solange
Magnificat Quando passou a noite passada no interior do universo, e eu, a minha alma, terei o meu dia? Quando me lembram de estar acordado? Eu não sei. O sol brilha acima: impossível de se assistir. As estrelas ammiccano frio: impossível a contagem. O coração bate estranho: impossível ouvi-lo. Quando é que este drama sem teatro, ou o teatro sem drama, e posso ir para casa? Onde? Como? Quando? Eu fixo gato com olhos de vida, quem você lá no fundo? Sim, sim, é ele! Ele, como o Josué, o sol vai parar e eu acordei; e, depois, diariamente. Sorriso no seu sono, a minha alma! Minha alma Sorriso será dia!